quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Jipão 1959

        Este post é uma homenagem, mesmo que um tanto atrasada em relação à data, a todos os pais, vivos ou já falecidos. Mas dedico este post especialmente ao amigo Valmir Edmar Juchen, ao qual através deste presta uma bonita homenagem a seu falecido e jeepeiro pai , Werno Frederico Juchen.
        É a  história de dois guerreiros: seu pai e o Jeep 1959 que fez parte da família. Ela será contada agora, resumidamente, e com as próprias palavras do Sr. Valmir.
        "A parceria começou na década de 60, após meu pai vender outro jipão 1951, o qual o havia adquirido meio surrado, resolveu vendê-lo e após oferta do Sr. Mário, vizinho do sítio, adquiriu seu jipão 1959 semi-novo, para que a família tivesse mais conforto. Mesmo meu pai não tendo todo o dinheiro, após uma certa insistência do Sr. Mário, que queria que seu jeep fosse adquirido por uma pessoa que também gostasse do jipão e também era a chance de tê-lo sempre por perto, mesmo sendo de outro dono. Assim foi fechado o negócio, no mesmo dia do nascimento de minha segunda irmã, sendo que eu nessa época ainda não tinha nascido.
        Tínhamos gado no sítio e vendíamos leite na cidade. De manhã, após meu pai e minha mãe aprontar tudo, lá ia o jipão com vários galões para entrega de leite de casa em casa. Assim que terminava a entrega do leite meu pai para a roça onde tínhamos uma plantação de café. Lembro, nas colheitas, o velho jipão carregando várias sacas de café para o terreirão e para aproveitar a viagem, vinha com sacos de café até por cima do capô do motor e amarrados no seu robusto parachoques dianteiro.
Após a grande geada de 1975, acabaram-se os cafezais do Paraná e tudo mudou, o velho jipão já não tinha mais o trabalho de carregar as sacas de café. Logo em seguida foi também proibida a venda de leite diretamente pelos produtores. Sobrava para o jipão a responsabilidade de transportar a família pelas viagens na região e passeios pela cidade. Coisa que o jipão fazia muito bem e despertava inveja, inclusive quando tínhamos de ir a algum lugar de estrada ruim.
          Era pequeno ainda mas me lembro de uma vez em uma festa de casamento que se realizou no sítio do noivo. No meio da festa choveu forte e a maioria dos automóveis que lá estavam ficaram atolados e as pessoas só vinham embora pegando carona nos 4x4 que lá estavam.
Em 1979, com o jipão servindo apenas para o transporte da família em passeios e sem uso constante em trabalhos pesados no sítio, meu pai resolveu comprar um carro novo, um VW Variant azul, por 60 mil cruzeiros. E lá ia o jipão para uma garagem improvisada. Um dia um mecânico da cidade vizinha de Cambé ficou sabendo do jipão e veio tentar a compra. Após algumas vindas e idas sem sucesso, conseguiu convencer meu pai a vender o jipão por 12 mil cruzeiros. Imaginem, que após tanto trabalho, o jipão estava praticamente como na foto de 20 anos atrás, apenas com um corte na capota de lona, do lado esquerdo, onde uma vaca que estava sendo "rebocada" para o pasto e ia amarrada no parachoques, enfiou os chifres na capota.
           Após muitos anos depois da venda, meu pai me confidenciou que logo depois da venda do jipe, arrependeu-se e que nunca deveria ter vendido o companheiro. Confesso que certa vez, eu já jovem, conversando sobre o assunto, tive a impressão de ver meu pai com os olhos cheios de lágrimas após ele dizer que gostaria de poder ter um jipão novamente um dia, para poder dirigir por aí. Pensei um dia em comprar um para dar de presente a meu pai. Sei que não seria o mesmo jipão do passado dele mas quem sabe poderoa deixá-lo um pouco mais feliz e diminuir sua tristeza da falta do companheiro jipão 1959.
Há alguns anos tive a oportunidade de comprar um jipe, um Willys 1965, mas infelizmente meu pai já estava meio adoentado nessa época e não conseguia mais dirigir, vindo a falecer um certo tempo depois, sem poder ter tido a oportunidade de dirigir o jipão novamente quando quisesse. Tenho dois sonhos que gostaria de poder realizar um dia. Um é restaurar meu jipe e poder deixá-lo totalmente original de época e o outro é encontrar aquele velho companheiro jipão 1959 que foi do meu pai.
            Hoje o sítio não existe mais, pois o progresso chegou e a cidade moderna engoliu o lugar onde fui criado junto à minha família e o jipão 1959, ficando somente um loteamento imobiliário.
           Na foto antiga, aparecem meu pai, mãe e irmãs, pois eu não tinha nascido ainda, e o jipe Willys 1959.
           Nas outras fotos aparecem o meu atual jipe ano 1965, estacionado no exato local onde há meio século atrás foi tirada a foto da família , e o meu jipe estacionado no exato lugar onde estava parado o jipão 1959 em frente ao portão da nossa casa  no sítio há meio século atrás."





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