domingo, 25 de novembro de 2018

E na fazenda tinha um Jeep...de 1983


Ora, nada mais comum, afinal o Jeep civil tinha a zona rural como seu habitat natural. Ali ele "sentia-se em casa" e tinha a oportunidade e o orgulho de mostrar do que é capaz.
Essa pequena introdução serve para contar a história e mostrar um dos últimos Jeep civis 5224 (Jeep Universal) montados no Brasil, em 1983.
Um próspero fazendeiro, que morava no Rio de Janeiro,  adquiriu 0km o exemplar das fotos para utilizá-lo somente na sua fazenda no interior de Minas Gerais. O dono descia com seu avião na propriedade e usava o Jeep para percorrer as estradas do interior da fazenda. Função que perdurou até 2015, quando então a fazenda foi vendida de "porteira fechada", com tudo, inclusive o jipinho.
O novo proprietário, ao abrir um galpão e verificar o que havia lá, deparou-se com o veículo empoeirado. Foi vendido então para Cristalina, cidade goiana, onde ficou por mais dois anos. Nessa época o Ford ainda tinha os pneus, velas e cabos de vela e tampa do distribuidor originais de fábrica! Através de um intermediário em Santa Catarina, foi vendido para o atual proprietário e portanto, terceiro dono, vindo parar agora em terras gaúchas.

O atual e feliz proprietário é jeepeiro há mais de 18 anos. Foi muito influenciado por seu padrinho de Jeep e de batismo desde criança, e na data em que completou 15 anos de idade foi presenteado pelo seu pai com  um...Jeep! Era um modelo 1969 (início da era Ford). Teve ainda um modelo militar, ano 1980, ambos já vendidos.
O exemplar 1983, cor Azul Aquário, comprado baseado em fotos, quando visto pessoalmente foi uma surpresa atrás da outra, conta o atual dono, que tem nome de ídolo do rock and roll , no caso o Rei do Rock, Elvis Presley, que além de Cadillac gostava também de Jeep.
Entre as surpresas, o elemento filtrante do ar ainda original, que de tanto tempo sem substituição "colou" no seu alojamento.

 Chamou ainda a atenção os cabos de bateria Motorcraft... cilindro mestre do freio original... toda elétrica original... buzina funcionando no volante... motores de limpador de parabrisa originais funcionando... faróis originais... sinaleiras traseiras originais... nenhum botão no painel além dos originais ... chave de seta original... enfim... toda instalação elétrica original... lata nunca tirada do chassis... pintura original em grande parte da carroceria... interior do porta luvas original... bancos originais (inclusive o traseiro com as travas originais) cintos de segurança... Percebeu ainda uma espécie de bandeja embaixo do carburador que nunca havia visto antes em outro jeep (o motor 2.3 OHC possui o carburador logo acima do distribuidor e a bandeja tinha função de drenar a gasolina que vazasse do carburador para o chão através de uma mangueira, não deixando assim que o combustível caísse sobre o distribuidor). Conta ainda que motor , caixa, reduzida e eixos nunca foram abertos ou desmontados... tudo isso original de fábrica.
 No detalhe, a bandeja de dreno.
                                                 Carburador SOLEX H40/44 EIS
 
Em resumo, é um sobrevivente de época, nunca restaurado, que não é perfeito, mas conserva inúmeros itens ainda de fábrica. Certamente um dos pouquíssimos desse ano/modelo que não sofreram modificações, mantendo alto percentual de peças "standard". Falo isso porque eu mesmo comprovei pessoalmente, tendo inclusive a felicidade de dirigi-lo.






Tal fato, além de ser uma das últimas unidades montadas (a plaqueta indica montagem em 16 de março de 1983), o credencia para ser assunto deste post, servindo de referência certamente para outros e outras que pretendem restaurar ou conhecer melhor essa derradeira fornada de Jeep.

Outro detalhe que nunca tinha visto, é a ausência da inscrição Jeep, em relevo nas laterais da carroceria. Ostenta apenas o oval da Ford em ambos os lados, fato que também é incomum, pois desde 1977 era fixado apenas no lado do motorista (esse assunto será matéria em breve).

Uma teoria é de que isso tem a ver com o fato de que nessa época, ocorreu o lançamento da pick-up versão 4x4 derivada do Corcel, a Pampa (conhecida depois como Pampa Jeep) e a Belina 4x4. Mais tarde, no início dos anos 90,esses modelos foram relançados com a marca Jeep, numa tentativa desesperada de impedir a entrada da Chrysler com a linha Jeep no Brasil, porque quando a Ford comprou a Willys Overland do Brasil,  herdou a marca Jeep aqui e a Chrysler comprou a marca para o resto do mundo. Quando a Chrysler resolveu voltar ao Brasil com a Cherokee, a Ford foi à justiça alegando que ela tinha o registro da marca Jeep no Brasil.
Acontece que para você ser dono de uma marca, não basta registrá-la, é preciso utilizá-la e a Ford tinha abandonado a marca em 1983 e foi exatamente esse o argumento da Chrysler em sua defesa. Imediatamente a Ford relançou a Belina e a Pampa para tentar reverter a situação, mas já era tarde. A Ford perdeu a marca Jeep.

Mas é apenas uma das teorias. Talvez as últimas fornadas saíram sem a estampa Jeep mesmo, inclusive no protótipo desenvolvido pela Ford e que nunca foi colocado a venda, as laterais apresentavam apenas faixas esportivas e emblemas em plaquetas fixadas.Troca por reparo de funilaria foi descartado, o proprietário diz que até levou em 2 ... 3 funileiros pra procurar vestígios de terem trocado essa chapa mas para minha surpresa e dele, é original de fábrica...


O veículo atualmente apenas passou por uma revisão mecânica, onde foram trocados fluidos , óleos  e peças como o filtro de ar (que como já mencionei, estava colado de tão antigo). Os pneus também foram trocados por novos, mas de especificação original. O estofamento foi refeito seguindo o padrão do antigo (que estava muito desgastado) inclusive mantendo-se as molas internas ainda originais. Até mesmo os cintos de segurança dianteiros são de fábrica!


Foi instalada uma capota nova, do mesmo fabricante da original, porém de modelos anteriores, dos anos 70 pois a empresa não produz mais aquela no padrão do início dos anos 80.

Fator de grande relevância no caso dessa unidade, é a referência que representa no sentido de vários detalhes estarem intactos, como a parte elétrica, adesivos (exceto o do paralamas que é uma reprodução), plaquetas, conectores...importantes para a visualização de posições e esquemas originais, onde os restauradores mais exigentes costumam ter dúvidas.







 A partir de 1980 a moldura de faróis e lanternas não era mais cromada.


 Nessa época o Jeep nacional possuía limpador elétrico do parabrisas em ambos os lados, com acionamento por botão no painel, sendo a parada automática, onde o mecanismo retornava à posição inicial após desligado.
Marca BOSCH. Algumas unidades dessa peça também vinham estampadas com a logomarca oval da Ford na parte superior.





 Acima, detalhe da fixação do setor de direçao. Reparem nos reforços no chassi, característica dos  Jeep dos anos 80.




 Notem, que mesmo com o motor OHC, de bloco azul, a carcaça da transmissão, assim como setor de direção, continuavam a ser pintados de vermelho, como na época da Wllys.


 Este adesivo é reprodução do original. A posição dele variava conforme o ano, nos Ford OHC. Mas isso será matéria de outra postagem, certamente.
 Cilindro-mestre do freio...original! Reparem nos conectores.







 Filtro de combustível, opcional. Raro de se ver.

 Acima, detalhe da válvula reguladora do sistema de ventilação positiva do cárter (base verde).

 Filtro de ar Heavy Duty (serviço pesado).
 Acima, detalhe da vedação do sistema de ventilação positiva do cárter.




 Chave de seta marca Rossi.


O Jeep brasileiro deixou de ser produzido no final de março de 1983 (mas unidades 0km continuaram a ser vendidas após um tempo). A Ford alegava que uma renovação do produto exigiria grandes investimentos e não havia, segundo ela, descoberta nenhuma garantia de que um novo projeto fosse bem sucedido. Na época, a fábrica havia dito que "não deixaria descoberto o segmento de utilitários com tração nas quatro rodas, inclusive para continuar atendendo as Forças Armadas". Naquele mesmo ano lançaria a versão 4x4 da Pampa e Belina.
É...parece que a Ford arrependeu-se amargamente.

Um jeepabraço!

Crédito das fotos: Alisson Paese e Elvis Franceschini
Texto: Alisson Paese



 
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