domingo, 3 de março de 2013

O MUTT M151 Parte 2


Nesta segunda parte sobre a história controversa do MUTT M151 e suas séries, é relevante dizer que apesar dos problemas graves apresentados pelo veículo, o MUTT ficou mais tempo em linha a serviço das Forças Armadas americanas do que os MB/GPW, M38 e M38A1, sendo produzido de 1960 a 1982. Aqui no Brasil ele foi utilizado, principalmente pelo Corpo de Fuzileiros Navais, e ficou conhecido pelo apelido de “Patinha”.

 Quem já dirigiu um sabe que é um jipe muito confiável e extremamente prazeroso de conduzir, principalmente pela suspensão independente nas 4 rodas, sendo muito superior neste aspecto a qualquer outro  de sua geração ou anterior. Tanto que na minha  opinião e conforme estudos das Forças Armadas americanas, isso acabou contribuindo junto com outros aspectos, para sua fama de capotador. Acontece que os motoristas utilizavam-no quase como que uma viatura de passeio comum dada sua excelente dirigiblidade, e não como uma viatura projetada para excelente desempenho em terrenos e condições hostis, fato que promoveu uma série de instruções, palestras e cursos sobre a sua correta condução.
A Ford iniciou sua produção em 1960 ao receber um contrato de cerca de 10.000 unidades que seriam utilizadas inclusive por outras forças além das norte-americanas.
Em 1962 a Kaiser Jeep, além da Ford,  também ganhou a concorrência para produzir o MUTT M151 (não parece uma revanche da época da Segunda Guerra?) e em 1964 mais de 35.000 haviam sido produzidas. Nesse ano o MUTT M151 sofreu modificações, principalmente na sua suspensão traseira, que foi reforçada para obter maior capacidade de carga devido ao acoplamento de novos sistemas de armas. Assim ele foi redesignado como MUTT M151A1.

Embora seja mais baixo e largo do que o seu antecessor, o Willys M38A1, o MUTT apresentava uma forte tendência ao capotamento em curvas mais fechadas, mesmo em velocidades mais baixas. Entre outras razões estava a de que sua estrutura monobloco não apresentava elasticidade suficiente para absorver todas as imperfeições do terreno, mas a principal razão era o fato de que o centro de articulação dos braços da suspensão fazia com que a roda em relação à estrutura fazia um movimento para dentro, o que aliado a um esterço abrupto e de grande giro fazia-o capotar. A situação piorou quando relatórios de acidentes com o MUTT em 1967 foram apresentados revelando que ele esteve envolvido em 3538 acidentes, que resultaram em 104 mortes, onde em 36% dos acidentes as capotagens não foram por colisões. Os relatos afirmaram que uma curva completa (90º) a velocidades superiores a 32 km/h podiam fazer um veículo de eixos rígidos como o M38A1 perder o controle ou capotar, o que agrava-se em veículos de suspensão independente das características do MUTT M151.
Como eu já havia dito, os seus próprios motoristas contribuíam para a fama de capotador da viatura MUTT. Para tentar sanar, ou amenizar o problema técnico então, o Departamento de Defesa instalou um programa de treinamento de motoristas especialmente para esta viatura. Acreditava-se que como o uso principal deste tipo de veículo era o fora-de-estrada, consequentemente com o uso de pneus militares do tipo não-direcional (iguais aos Pirelli MT por exemplo) macios demais para pisos firmes e bem tratados (asfalto) e a dirigibilidade excelente do MUTT induziam os motoristas à um hábito de condução “civil” do veículo. Porém o programa de treinamento não surtiu o efeito desejado, pelo contrário, piorou a fama do MUTT M151.



 Vários lotes foram "desmilitarizados" por ordem do Ministério da Defesa americano.




A foto acima é rara e trata-se de um dos últimos lotes no inventário do Exército dos Estados Unidos.

                                                     Modelo com eixos rígidos para testes

Então em 1969 , após testes até mesmos com veículos dotados com eixos rígidos e feixes de molas similares aos Willys MB/Ford GPW que não funcionaram de maneira satisfatória, a suspensão traseira foi modificada adotando-se novas bandejas inferiores e pivôs, que partiam da frente para trás e não do lado interno para o externo da roda como os M151 E M151A1. Essa modificação reduziu consideravelmente a tendência ao capotamento. Fato que ficou comprovado em testes que demonstraram que a velocidade de risco havia aumentado em 16 km/h, quando vazio. Carregado, o modelo com a nova suspensão apresentava perigo ainda menor, pois ao invés de capotar ele tendia a dar um “cavalo-de-pau”. Mesmo com a melhora considerável, as Forças Armadas americanas identificaram os modelos MUTT151 como um perigo para a segurança dos usuários das rodovias públicas e decidiram não permitir a venda dos excedentes ao público civil (desmilitarização). Mesmo assim algumas unidades caíram nas mãos de civis, ainda mais quando as forças de outros países que receberam lotes do MUTT acabaram repassando-os sem desmanchá-los.
 Acima: Um MUTTM151A2 em testes.
 Detalhes da nova suspensão do MUTT151A2
   

Surgia então o MUTT M151A2, cujas primeiras unidades foram entregues ao Exército em 26 de janeiro de 1970. Além da nova suspensão traseira ele trazia outras modificações perceptíveis: novos paralamas dianteiros para acomodar novas lanternas maiores e com pisca à prova d’água, pedais anti-derrapantes, limpadores de parabrisas maiores e elétricos, lavadores de parabrisas , parabrisas maior e de peça única, freios melhor dimensionados, volante absorvedor de energia e espelho retrovisor interno.
 Mutt151A2 com volante absorvedor de energia.

Nessa época ele passou a ser produzido pela AM General, a mesma fábrica que anos mais tarde (1982) viria a produzir o seu substituto, o “Humvee” (HMMWV).

Um dos últimos modelos M151A2

Foi a melhor fase para o MUTT. Mesmo assim os problemas continuaram. Em 1980 a 9ª Divisão de Infantaria foi selecionada como unidade de teste do M151. Um teste feito por um batalhão de saúde revelou que as vibrações da carroceria eram um perigo significativo à saúde dos tripulantes, que sofriam até mesmo lesões nos rins devido aos choques e vibrações verificados na ocasião. O relatório de avaliação recomendou um redesenho dos assentos pra incluir uma adição ao estofamento e aumentar a absorção ao choque, além de modificar a suspensão para maior absorver os choques e trepidações e incluir os operadores desta viatura  que a utilizavam como “Veículo de Ataque Rápido”, ou Fast Attack Vehicle (FAV) em programas de vigilância médica como medida para identificação dos efeitos das vibrações sobre a saúde do corpo.
Por fim, este modelos também entraram no programa de desmilitarização dos MUTT, que consistia em cortar e esmagar lotes de veículos, tormando-os inoperantes para a venda, na não ser como sucatas.
O MUTT151 e suas séries foi uma viatura militar 4x4 à frente de seu tempo, apesar dos problemas apresentados. Quando bem conduzida se tornava altamente rentável e confiável, era ágil e extremamente útil. Apesar de ter saído de linha em 1982 foram utilizados ainda na Guerra do Golfo, em 1991, principalmente pela Arábia Saudita.


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